Uma história de sucesso

Em 6 de maio de 1818 o Rei D. João VI visando promover o desenvolvimento do Brasil, ainda unido a Portugal, assinou o decreto destinado a financiar despesas com o transporte de cidadãos suíços, compra de terras e construção de casas, para fundar uma colônia em Cantagalo, fazenda denominada “Morro Queimado” . Depois, por alvará de 3/1/1820, o local passou a denominação de Vila de Nova Friburgo.

Dentre os que participavam da imigração, que abrangeu os anos de 1819/1820, estava a família Lemgruber, originária do cantão da Argóvia, na Suíça alemã. Era constituída pelos pais, Inácio e Luzia, com os filhos Antônio, Fridolin, João, Blasius, Marcus, Maria e Fidelis, cujas idades variavam de 2 a 14 anos. Deles descendem os diversos ramos da família Lemgruber, que hoje existem no Brasil, destacando-se nos mais diversos setores.

Do total de 2006 imigrantes que atravessaram o Atlântico em sete navios, levando de 55 a 122 dias na travessia, sobreviveram 1631. Aqui chegando, eles enfrentaram as dificuldades e desafios existentes numa terra estranha, tão diferente daquela que haviam deixado. Cerca de sessenta anos depois, em 1878, Manoel Ubelhart Lemgruber, que pertencia à primeira geração nascida no Brasil, era proprietário da Fazenda Santo Antônio, no município de Sapucaia no estado do Rio de Janeiro. Homem de boa cultura, fizera cursos de engenharia e mecânica na Inglaterra e Alemanha, dominando fluentemente o inglês, francês e alemão. Procurava utilizar em sua propriedade as técnicas mais avançadas no setor da agricultura e da pecuária, fruto das observações feitas nos estudos e viagens que fazia à Europa.

Durante visita ao Jardim Zoológico de Hamburgo conheceu alguns reprodutores de gado indiano, ali reunidos pela firma Haagenbeck. Agradaram-lhe os da raça Nelore, do tipo Ongole, havendo promovido a encomenda de pequeno lote, que chegou ao Brasil em outubro de 1878, chefiado pelo touro “Hanomet”, cujo nome sofreu a corruptela para “Maomé”, onde constavam também as vacas “Vitória” e “Gouconda”, que se destacaram pela boa produção.

Tornava-se, assim, o pioneiro na introdução, criação e disseminação do Nelore no território nacional.

Os resultados revelaram-se tão promissores que dois anos após, em 1880, ordenou a vinda de um segundo lote, que tinha como reprodutor o touro “Nero” e mais tarde, em 1883, um terceiro lote, com o famoso “Castor”, animal que se tornaria inesquecível pelas qualidades e descendência.

A abolição da escravatura e a proclamação da República, com a queda do regime imperial, repercutiram, como é notório, no ambiente rural onde ainda subsistia uma estrutura deficiente. Porém, o reflexo desses fatos não foi intenso na Fazenda Santo Antônio, onde o plantel do gado indiano cresceu depressa, com aclimatação e reprodução tão atraentes que nele foram buscar o início de suas criações o Dr. Francisco Machado Fernandes, o Cel. Augusto Lopes de Carvalho e Pedro Marques Nunes. Em 1903 vendeu um conjunto de animais para Joaquim Climério Dantas Bião, do Recôncavo Baiano, que exerceu decisiva influência na formação do rebanho na Bahia.

Manoel Ubelhart Lemgruber tivera o cuidado de recomendar que os animais importados fossem provenientes de fontes diferentes e conservava em sua propriedade três famílias distintas para fugir à consangüinidade. Foi um precursor em vários aspectos: mantinha registro particular das reses, controlava a produção leiteira e descartava os animais deficientes.

Na família Lemgruber o primeiro a aderir à criação do Nelore foi seu primo, Lourenço Augusto Lemgruber – meu avô paterno – proprietário da Fazenda Boa Esperança, na margem direita do Rio Paraíba do Sul, no município de Carmo, Estado do Rio de Janeiro. Utilizava a marca “LL”, que se destacou nas principais exposições e rebanhos daquela fase.

Oportuno assinalar que na primeira Exposição Nacional do Rio de Janeiro, efetuada em 1908, o primeiro prêmio e a medalha de ouro foram atribuídos a “Pan”, de Manoel Ubelhart Lemgruber, enquanto na 2a exposição, em 1917, o vencedor foi “Lamarão”, de Lourenço Augusto Lemgruber. Na 4a Exposição Internacional, comemorativa da centenário da Independência em 1922, o campeão foi “Louro”, de Pedro Marques Nunes, criação de Manoel Ubelhart Lemgruber. Com a morte deste no ano anterior, seu filho Flávio Lemgruber, deu continuidade à seleção do rebanho, buscando preservar as características que o distinguiam.

De maneira igual procederam os filhos de Lourenço Augusto Lemgruber – Agostinho Lemgruber, Fidélis Lemgruber, meus tios – Otacílio Lemgruber, meu pai – continuando a obra que fora começada por Manoel Ubelhart Lemgruber e que originou a cognominada “Linhagem Lemgruber“.

Porém, da mesma forma que havia um grande número de entusiastas das raças zebuínas, existia, igualmente, sensível parcela que as repudiavam, sobretudo aqueles que entendiam representar uma agressão aos princípios zootécnicos importar animais “subselecionados” de um país subdesenvolvido, desprezando as raças européias que vinham sendo aprimoradas há séculos pelas aptidões do gado. A índia era colônia da Inglaterra, condição em que permaneceu até 1947 quando conquistou a independência.

O Exemplo da resistência oposta às raças indianas pode ser comprovado na obra “Guia do Criador Bovino no Brasil – A Fazenda Moderna”, editada em 1913, de autoria do Dr. Eduardo Cotrim, que se referia ao Zebu nestes termos:

“Só nos fins do século XIX se começou a importação dos zebus indianos que hoje avassalaram os campos brasileiros, até que a dolorosa experiência de algum tempo mais, venha provar aos nossos criadores que fantasiaram por esse ídolo hindu, há muitos séculos existentes na índia e sempre incapaz de melhoramento, quão prejudicial foi, para a criação brasileira, a sua importação.”(pág. 135)

Enquanto no Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e outros estados o gado indiano encontrava ampla receptividade e assistia-se o crescimento dos plantéis, em São Paulo era vedada a presença do Zebu.

Em 1923 o afamado criador Pedro Marques Nunes, que havia formado seu rebanho com base na “Linhagem Lemgruber“, convidou meu pai, Octacílio Lemgruber, para participar de uma exportação de gado Zebu para o México. Os animais foram transportados pelo navio Cabedelo, do “Loyd Brasileiro”.

Após uma viagem bastante tumultuada, onde faltou até a alimentação para os animais, chegaram ao México, então governado por Alvaro Obregon, atravessando o país permanentes conflitos revolucionários.

Contava meu pai que nesse ambiente tornou-se difícil a comercialização do gado, o que demandou quase seis meses. Após concluírem as transações, dirigiram-se para os Estados Unidos, de trem e, ao atravessarem a fronteira em Laredo, foram detidos com os demais passageiros, permanecendo presos durante uma semana, sofrendo sérias privações até serem libertados.

O resultado dessa exportação de gado Zebu, do Brasil para o México, repercutiu na melhoria do rebanho mexicano e, depois, no próprio rebanho americano, com os touros “Manso”, “Brasileiro” e “Satã”, que contribuíram para a formação da raça Brahman.

Na segunda metade da década de 40, como o padrão brasileiro da raça Nelore estava condicionado às particularidades dos animais cuja importação havia sido promovida pelos criadores de Uberaba, destoantes do padrão indiano Ongole – que servia de orientação para os criadores da “Linhagem Lemgruber” – passaram estes a sofrer discriminação. Predominava a preocupação com os detalhes da valorizada “caracterização”, tais como as orelhas, o umbigo, etc., em detrimento de aspectos fundamentais como a rusticidade, precocidade no ganho de peso, reprodução, habilidade materna, além da mansidão, que é tônica da “Linhagem Lemgruber“.

Foi uma concepção que acarretou conseqüências nocivas, implicando em que despencasse tremendamente o peso dos animais que eram levados às exposições, acarretando verdadeiro retrocesso na criação nacional encarada globalmente.

Tal critério subsistiu até a década de 60, quando, em novas importações, chegaram animais efetivamente Ongole. Apresentavam algumas diferenças com daqueles que haviam sido adquiridos por Manoel Ubelhart Lemgruber quase um século antes, pois nesse espaço de tempo a seleção na índia, que já se tornara uma nação livre, estava mais voltada para a tração de implementos agrícolas e esportes.

A partir daí ocorreu a flexibilização do padrão  para atender a esses animais, o que abriu novos espaços para a “Linhagem Lemgruber“. Também contribui para isso o ingresso na criação, em 1974, de empresas que estão mais preocupadas com os resultados econômicos e menos interessadas em detalhes estéticos. A atuação de técnicos imbuídos de novas idéias sobre a performance dos rebanhos levando em conta predominantemente o aspecto da produtividade e o aproveitamento, quer a nível de consumo interno quer na área de exportação da carne, também trouxe perspectivas atraentes para a “Linhagem Lemgruber“.

Estou à frente do rebanho da Fazenda São José, que pertencia a meu pai, Octacílio Lemgruber, desde 1962, ano em que faleceu prematuramente. Preservei sua marca “OL” e assisti a fases em que era aconselhado a utilizar reprodutores Kangayan, para provocar “Choques de Sangue” e aproximar o rebanho do então chamado “Padrão Brasileiro” que apesar das deficiências já referidas era preferido para as premiações.

A crença no ideal de meus antepassados e a proteção de Deus, permitiram que, também eu, resistisse a essa tentação. Os maus tempos passaram e hoje está comprovado que os modismos não sobrevivem, pois  a “Linhagem Lemgruber” mostrou-se a mais válida opção para levar ao Nelore nacional e até mesmo ao indiano – por paradoxal que pareça – a indispensável contribuição genética nessa virada de milênio.

Isto pode ser comprovado pelas afirmativas do engenheiro agrônomo Mullapudi Narendra Gath, presidente da Associação Indiana de Gado Ongole e secretário da Sociedade de Melhoramento de Gado Ongole, que, em visita ao Brasil, afirmou ser o único país que conseguiu explorar o Nelore nos seus mais diferentes graus de aprimoramento, dizendo que tinha interesse especial na “Linhagem Lemgruber” que ainda mantém as características semelhantes ao antigo gado Ongole , já extinto na índia, que deu origem ao atual Nelore.

Ao formular este depoimento meu objetivo é mostrar a importância da “Linhagem Lemgruber“, impedindo que se perca na poeira dos tempos a sua origem e, ao mesmo tempo, reverenciar a memória de meus ancestrais e todos aqueles que levados pela convicção, conseguiram preservar após mais de 130 anos, este patrimônio genético de valor incomensurável.

Homenageio com muita admiração e respeito, idealistas como: Manoel Ubelhart Lemgruber, Flávio Lemgruber, Lourenço Augusto Lemgruber, Agostinho Lemgruber, Fidélis Lemgruber Sobrinho, Octacílio Lemgruber, Pedro Marques Nunes, Geraldo Soares de Paula, Donald Strang, Fernando Penteado Cardoso, Carmem M. Soares de Paula e tantos outros que, embora não referidos nominalmente, contribuíram com lucidez, sacrifício e confiança, para que a ‘Linhagem Lemgruber” se tornasse perene no cenário da pecuária brasileira.